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DOAÇÕES AO HAITI

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UMA "RÁDIO SOLIDARIEDADE" PARA O HAITI


BANCO DO BRASIL

AGÊNCIA-0452-9
C/c 41.407-7

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

TV BRASIL RESPONDE AO GOVERNADOR SERRA

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Mídia
9 de Fevereiro de 2010 - 21h26
Falta d'água: Serra se irrita com 'parcialidade' da TV Brasil
O governador de São Paulo e presidenciável tucano, José Serra (PSDB), irritou-se nesta terça-feira (9) com a pergunta de uma repórter da TV Brasil numa entrevista coletiva, sobre a falta d'água na capital paulista. Serra disse que a TV estatal fundada pelo governo Lula "tem sido sempre parcial" na cobertura de seu governo.

Serra na coletiva: "interesse grande demais"Durante a coletiva no Palácio dos Bandeirantes, após o anúncio do reajuste de 2010 do piso salarial paulista, a jornalista questionou como Serra via o fato de 750 mil pessoas estarem há três dias sem abastecimento. Uma adutora se rompeu no domingo e a Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado) disse que apenas "ao longo da noite" de terça para quarta-feira a água voltará às torneiras dos afetados.Serra respondeu que a Sabesp "está "azendo o possível" para consertar a adutora. "Já tinham dito que iam consertar até ontem (segunda-feira, 8). Não consertaram. Não sou eu que vou fazer previsão agora."Em seguida o governador passou a criticar a emissora da jornalista. "Espero que a TV Brasil tenha o mesmo interesse (que tem por São Paulo) com cada Estado e cada município".Outra jornalista perguntou se Serra se sentia perseguido pela TV Brasil. Resposta: "Não, de forma nenhuma. Pelo contrário. É um interesse grande demais que eu gostaria que fosse disseminado por todo lado. Espero que essa disseminação seja total, não sempre parcial como tem sido."As respostas irritadas causaram um desconforto que o próprio Serra tentou contornar com brincadeiras na parte final da coletiva. Perguntado sobre a visita que a cantora americana Madonna fará nesta quarta-feira ao seu gabinete, ele disse estar " tão curioso quanto vocês" e prometeu: "Quem publicar a melhor notícia sobre o piso (regional) vai ter acesso a ela"."A culpa é do 'PT press'"Não é a primeira vez que o governador José Serra afirma estar sendo perseguido pela imprensa, embora todos os observadores isentos apontem a ostensiva preferência dos principais meios de comunicação pelo presidenciável tucano. Em 10 de dezembro passado, quando as enchentes em São Paulo começaram a ocupar o noticiário, Serra acusou o que chamou de "manipulação" orquestrada pelo "PT press"."Os dados de corte de recursos [na prevenção de enchentes] que alguns jornais publicaram, e eu nem sei direito quais, estão totalmente errados", disse Serra na ocasião. "É mentira. Mentira e manipulação, quando não é o 'PT press'. Porque o 'PT press' é muito ativo", criticou.A TV Brasil foi lançada em outubro de 2007 pelo governo federal, como parte da Empresa Brasil de Comunicação (EBC). A oposição e a mídia privada a consideram um desperdício de dinheiro e uma ameaça à comunicação 'independente'. A governadora do Rio Grande do Sul, Yeda Crusius (PSDB), recusou, em janeiro, transmitir de graça a TV Brasil no Estado. Preferiu pagar R$ 20 mil por mês para veicular programas da TV Cultura, uma fundação mantida pelo governo de São Paulo.Da redação, com agências

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

LULA DÁ ENTREVISTA À TV PAMPA

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Presidente Lula faz um balanço do governo em programa de televisão. 1/4

UMA BOLSA FAMÍLIA INTERNACIONAL PARA O HAITI?

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Uma Bolsa Família Internacional para o Haiti?

O presidente Lula , escolhido como o estadista do ano, poderia propor ao mundo a implantação de um programa Bolsa-Família Internacional para o Haiti. Se no Brasil o Bolsa-Família foi capaz de assegurar alimentação diária para 44 milhões de seres humanos que viviam , ou melhor, vegetavam dormindo e acordando com fome, como não será possível que algumas dezenas de países juntos , sobretudo os ricos, destinassem parte de seus recursos para assegurar a 10 milhões de haitianos que possam alimentar-se regularmente, enquanto o país é reconstruído?

É verdade que muitos países estão já repartindo parte de suas receitas com os haitianos. O Brasil aprovou recursos de 350 milhões de reais para a ilha caribenha. Cuba mandou para lá cerca de 60 médicos e já está montando o quinto hospital de campanha, com a ajuda dos países que formam a ALBA – Aliança Bolivariana dos Povos da América.

A Unasur estará reunindo-se por estes dias também para propor uma ação concreta de ajuda ao Haiti.

Mas, a diferença de um Programa Bolsa-Família Internacional é que daria regularidade, sustentação e promoveria o compromisso da comunidade internacional com a sorte daquele povo que já sofreu invasões militares tanto de franceses como de norte-americanos, que já teve seus recursos rapinados, que foi obrigado a pagar uma dívida escorchante com a França, que teve que suportar uma sanguinária ditadura apoiada pelos EUA e agora tem que reconstruir-se todo após o terremoto. É evidente que com uma pequena parcela do que estes países ricos gastam em armamentos, em cosméticos, em comida para cachorro, em alcool e guloseimas, já seria possível garantir o funcionamento de um Bolsa-Família no Haiti. O que deve ser indagado, com veemência, é se querem mesmo salvar o Haiti, como afirmam neste circo midiático que se formou ou se vão, uma vez mais, condenar o Haiti à morte?

No caso brasileiro, também é importante que além dos médicos, alimentos, medicamentos, veículos e maquinário para realização de obras de infra-estrutura, o Batalhão de Engenharia do Exército Brasileiro, os programas de reconstrução que Lula está direcionando para o Haiti incluíssem a proposta de Bolsa-Família Internacional. Isto porque não é difícil prever, lamentavelmente, que um país que já praticamente não tinha uma economia de pé, que teve sua agricultura destruída colonialismo, agora, após um terremoto deste porte, venha a sofrer também efeitos catastróficos da fome e da desnutrição. Sem contar, infelizmente, com alguma possibilidade grave de epidemias, como alertam já os profissionais de saúde.

Rádio Solidariedade

O Bolsa-Família, por meio do cadastramento das mães, permitiria salvar as crianças, a parte mais frágil de tudo isto, bem como os idosos e enfermos. O uso do rádio pode ser decisivo para orientar e dar informações de utilidade pública para toda uma população que hoje vive sob barracas, ao relento, sem endereço, sem instalações sanitárias, sem água, luz etc. Por isso, é positiva a idéia de algumas entidades sindicais e comunitárias brasileiras de coletar milhares de radinhos de pilha e doar ao Exército Brasileiro para distribuir entre os haitianos. Assim, os haitianos podem ser alcançados pela programação da Rádio ONU, por exemplo, ou outra que cumpra a função social e humanitária, rigorosamente obrigatórias. A depender de avaliação do Exército - consultas estão em curso - estas entidades poderiam também enviar transmissores de rádios comunitárias, desde que assegurado o seu funcionamento seguro e adequado, já que há ainda a atuação de grupos armados que organizam saques

Assim, caberia também ao governo pensar na instalação de um Ponto de Cultura do Minc por lá, tal como o já existente em Caracas. Assim, a solidariedade brasileira ao Haiti ganharia em qualidade com a participação popular, tal como está propondo o MST, disposto a enviar técnicos agrícolas, sementes, ferramentas. Vale lembrar que relatório da Fao indica que existe uma produção de feijão com risco de perda já que os haitianos tudo perderam, estão cuidando dos enfermos, não tem transporte, não há infra-estrutura para promover esta colheita. Quantas brigadas de solidariedade não se enviaram à Nicarágua e a Cuba para a colheita do café da cana. É hora de refazê-las. O movimento estudantil, os sindicatos, as universidades brasileiras também poderiam oferecer ajuda, seja coletando os radinhos, ou sementes, seja desenvolvendo programas técnicos adequados para a situação, seja por meio do envio de brigadas, que atuariam em coordenação com o Exército Brasileiro, conformando uma aliança cívico-militar que já atuou de forma muito positiva em nossa História, por exemplo, na Campanha “O Petróleo é Nosso”, que resultou na criação da Petrobrás.

Integração latino-americana e caribenha

Há uma disputa de ocupação estratégica naquela região. Mesmo nas tragédias s planos mais sinistros vicejam. Se há supostos missionários dos EUA presos por tentarem seqüestrar crianças haitianas....como denunciou a Telesur. O Brasil tem realizado obras importantes no Caribe, com a presença de suas empresas estatais - como a Petrobrás que está ampliando e modernizando o Porto de Mariel , em Cuba - e esta presença deveria ser consolidada, qualificada, obviamente , não com o sentido colonialista como se aventa maliciosamente nas páginas do jornalismo de desintegração. O sentido deve ser o de promover a legítima e necessária integração dos países da América latina e Caribe. No Caribe está a Quarta Frota dos EUA, que despejaram mais de 13 mil fuzileiros no Haiti. Por ali também navega a Frota Russa. Ali está a Venezuela nacionalizando seus recursos e onde estão importantes empresas estatais e privadas brasileiras. E sabemos que não é apenas no filme “Avatar” que o complexo militar-industrial possui planos agressivos contra a Pátria de Bolívar.

Já Cuba tem hoje no Haiti 600 médicos. Já tinha centenas antes do terremoto, além de programas de alfabetização em dialeto creole, desenvolvido por pedagogos cubanos, com o uso criativo do rádio. Detalhe: em Cuba já não há mais analfabetismo, há décadas! E agora o país também está enviando para Porto-Príncipe jovens haitianos que estudam na Escola de Latinoamericana de Medicina, localizada em Havana. Nesta Escola também estudam, gratuitamente, 500 jovens estadunidenses, em sua maioria negros e pobres dos bairros do Harlem e do Brooklin. Alguns destes estudantes estadunidenses também estão sendo enviados para o Haiti para atender os enfermos.

O episódio caracteriza uma situação muito interessante para ser examinada não à luz da medicina, mas da política: o mais rico país do mundo, que tem o maior número de médicos do mundo, que tem também o maior orçamento militar de todo o mundo, desembarca 13 mil soldados no país destroçado. E Cuba, que é um país de escassos recursos materiais, além de permitir que jovens pobres e negros estadunidenses formem-se em medicina - um deles declarou que se continuasse no Harlem provavelmente cairia nas mãos do narcotráfico - os envia para prestar solidariedade a um povo negro e irmão, evidenciando o sentido simbolicamente antagônico das duas iniciativas. Lá no Haiti, este estudante armado de idéias, de sabedoria e uma consciência de medicina social, tal como o Che praticou, quando se defrontar cara a cara com um mariner armado, preparado para matar, revelará ao mundo uma das mais generosas lições do dolorido Haiti.

Beto Almeida
Membro da Junta Diretiva de Telesur
Presidente da TV Cidade Livre de Brasília
9 de fevereiro de 2010

'Processo de dominação'

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Marco Aurélio Garcia ataca programação de TV a cabo‏


BRASÍLIA - Escalado para coordenar o programa de governo da ministra Dilma Rousseff, pré-candidata do PT à presidência, o professor Marco Aurélio Garcia anda preocupado com a influência da TV a cabo sobre os corações e mentes dos brasileiros. No sábado, o assessor especial do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para assuntos internacionais discursou sobre o tema em debate na sede nacional do PT. Em meio a discussões sobre política externa, ele surpreendeu com um libelo contra o que chamou de "hegemonia cultural dos Estados Unidos".



" Eles realizam, de forma indolor, um processo de dominação muito eficiente. Despejam toda essa quantidade de esterco cultural "



Marco Aurélio comparou a influência da indústria de entretenimento ao poderio bélico da 4ª Frota, a divisão da Marinha americana que atua no Atlântico Sul. - Hoje em dia, quase tão importante quanto a 4ª Frota são os canais de televisão a cabo que nós recebemos aqui. Eles realizam, de forma indolor, um processo de dominação muito eficiente. Despejam toda essa quantidade de esterco cultural - esbravejou. Em tom de alerta, o assessor de Lula disse que a esquerda precisa reagir à difusão de valores capitalistas: - Estamos vivendo um momento grave do ponto de vista de uma cultura de esquerda. A crise dos valores do chamado socialismo real e a emergência desse lixo cultural nos últimos anos nos deixaram numa situação grave. O petista também reclamou de um suposto marasmo intelectual no Brasil, comparando os dias atuais a momentos de efervescência cultural das décadas de 1930 e 1950: - Hoje vivemos uma transformação do ponto de vista econômico-social muito mais importante do que no passado. No entanto, temos um deserto de ideias, um deserto de produção cultural. Isso é um problema no qual temos que pensar. O coordenador da campanha de Dilma disse que o Brasil foi programado para ser um país pequeno e defendeu o fortalecimento das estatais no governo Lula. Ao condenar o avanço da direita na Europa, fez uma recomendação à plateia: - Nunca subestimem a estupidez humana. Quem subestimou a estupidez humana se deu mal na História.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

CAMPANHA: UMA "RÁDIO SOLIDARIEDADE" PARA O HAITI

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DOAÇÕES PARA O HAITI

BANCO DO BRASIL
AGÊNCIA 0452-9
CONTA CORRENTE 41407-7

UMA "RÁDIO SOLIDARIEDADE" PARA O HAITI

Uma campanha popular de solidariedade visando doar rádios comunitárias e mil radinhos de pilha ao povo do Haiti está sendo organizada pela ABCCOM (Associação Brasileira de Canais Comunitários), ABRAÇO (Associação Brasileira de Rádios Comunitárias) e pelas TVs Cidade Livre de Brasília e Comunitária do Rio de Janeiro.

O objetivo é ajudar na reconstrução do país irmão devastado pelo terremoto por meio de um jornalismo de utilidade pública, com informações sobre orientação sanitária, ambiental e técnicas. “É uma maneira concreta de expressar solidariedade, na linha da informação construtiva, ao mesmo tempo em que também colocamos em prática uma iniciativa que contribui para a integração entre os povos”, declarou Beto Almeida, presidente da TV Cidade Livre de Brasília, um dos organizadores da iniciativa, que lembrou frase de um poeta nicaraguense que dizia

"A solidariedade é a ternura entre os povos".

As entidades vão arrecadar fundos entre militantes dos movimentos sindicais, populares, intelectuais, artistas e religiosos, comprar os equipamentos e doar ao Governo Federal , para que o Exército Brasileiro, que coordena a Missão da ONU no Haiti, transporte-os para lá, assegurando as condições para seu funcionamento mais adequado e útil ao povo haitiano devastado pela tragédia. A iniciativa dos militantes da comunicação comunitária coincide com o chamado que o Presidente Luis Inácio Lula da Silva fez aos movimentos sociais no sentido de que declarassem “um ano de solidariedade ao Haiti”, oportunidade em que também criticou os países ricos por terem sonegado historicamente qualquer ajuda ao país do Caribe.

O presidente tem viagem marcada para o Haiti no próximo dia 25 de fevereiro e os organizadores da campanha esperam que até lá seja possível colocar na bagagem de Lula pelo menos uma parte da doação dos movimentos sociais ao povo haitiano.

Para o jornalista Paulo Miranda, vice-presidente da ABCCOM, neste momento de dor e de tantas necessidades, o povo do Haiti também precisa dispor de meios para uma comunicação que lhe permita recuperar plenamente a cidadania e a soberania. "Além de todos os males causados pelo colonialismo, os norte-americanos continuam desinformando sobre a triste realidade do país. É preciso que os haitianos tenham meios para fazer uma comunicação soberana e cidadã", disse Miranda.Além dos equipamentos, as entidades citadas estão colocando à disposição do Governo Federal, comunicadores comunitários dispostos a se deslocarem ao Haiti para promoverem a instalação técnica dos transmissores, bem como cursos de capacitação de haitianos em técnicas que estão sendo já chamadas de jornalismo de reconstrução e jornalismo de integração.

Segundo José Luis Soter, Coordenador Nacional da Abraço, “o deslocamento de comunicadores comunitários até o Haiti é importante porque significa plantar uma semente de comunicação libertadora e porque se traduz em exemplo pedagógico, prático e concreto , sobre o potencial solidário que as redes solidárias podem por em prática, quando são construídas as condições”.

Os organizadores esclarecem que todo este trabalho é voluntário, sem qualquer salário ou remuneração, necessitando apenas que os equipamentos e os comunicadores sejam transportados para o país caribenho pelos vôos organizados pelo Exército Brasileiro.

Para Moysés Correia, coordenador da TV Comunitária do Rio de Janeiro, é muito importante destacar a união entre civis e militares brasileiros, entre movimentos comunitários, exército e governo federal, para uma ação concreta de solidariedade que esta campanha representa. "É um exemplo para os países ricos que sempre negaram solidariedade e tanto exploraram o Haiti", declarouA ABRAÇO e a ABCCOM estão convocando a todos os movimentos sociais, centrais sindicais, partidos políticos, movimento estudantil, intelectuais e artistas e população em geral, a aderirem a esta campanha já chamada de Rádio da Solidariedade Brasileira.

A campanha será divulgada pelas rádios e TVs comunitárias, pela imprensa sindical, pelas emissoras de TV educativas e universitárias e pela imprensa alternativa. Os organizadores esclarecem que serão doados tantos equipamentos quanto seja possível comprar com a arrecadação, sempre considerando a disponibilidade de transporte para o Haiti.

Para mais informações, os interessados em aderir à Campanha podem contatar em Brasília a TV Cidade Livre (61-33432713), a ABRAÇO (61-3369-4188), a ABCCOM (61-3344-2656), ou nos celulares 61-9964-8439 (Sóter) ou (61-9986-2373) Beto Almeida.

Informações também pelos e-mails:

ABRAÇO , abraconacional@yahoo.com.br ou ABCCOM, com a TV Comunitária do Rio de Janeiro, no tvcrio@tvcrio.org.br.

Associação Brasileira de Canais Comunitários - Abccom
Associação Brasileira de Radiodifusão Comunitária – Abraço
TV Cidade Livre de Brasília
TV Comunitária do Rio de Janeiro

UMA COMUNICAÇÃO SOLIDÁRIA E DE INTEGRAÇÃO É POSSÍVEL E URGENTE!

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Exposição apresentada na Abertura do Mutirão de Comunicação da América Latina e Caribe, em Porto Alegre, a 3 de fevereiro de 2010



Blowin In The Wind


Quantas vezes
Deve um homem olhar pra cima
Para poder ver o céu
Quantos ouvidos
Um homem deve ter
Para ouvir os lamentos do povo
Quantas mortes
Ainda serão necessárias
Para que se saiba que já se matou demais


Bob Dylan // Diana Pequeno


No dia 29 de janeiro de 2010, o presidente do Haiti, René Preval, anunciou que a capital Porto Príncipe, seria reconstruída em outro local , menos vulnerável a terremotos, seguindo a orientação de sismólogos.Em outubro de 2008, o geólogo Patrick Charles, professor do Instituto de Geologia de Havana, alertou em palestra no Congresso Internacional de Geologia do Caribe, realizado na República Dominicana que a população de Porto Príncipe deveria se preparar para um terrremoto de enormes proporções, chegando mesmo a afirmar que este evento sismológico era inevitável. Embora não pudesse prever exatamente a data, ele chamou atenção para o súbito crescimento dos lagos de Enriquillo e Azuel, que ficam na Ilha Espanhola, onde estão Haiti e República Dominicana, como indicadores de que uma movimentação sísmica estava em marcha. Estes estudos do geólogo cubano foram corroborados pelo geólogo estadunidense John Bellini, do Instituto Geológico dos EUA.
Como os meios de comunicação trataram, na época, o alerta do professor Patrick Charles?

Casualidade e políticas públicas

Em 2007, as autoridades especializadas em edificações de Angra dos Reis haviam determinado a derrubada de várias construções no município fluminense, entre elas a Pousada Sankai, na Ilha Grande, cujo desabamento causou dezenas de mortes. Não apenas a ordem não havia sido cumprida como o governo do Rio de Janeiro chegou a flexibilizar as normas visando facilitar novas construções nesta região de grande potencial turístico.Também é preciso registrar que quando se deu a privatização da indústria naval brasileira, trazendo o fechamento de estaleiros naquela região, os operários demitidos e suas famílias foram habitar os morros de Angra dos Reis.

Assim, nestes, dois casos, não se pode falar em casualidade, sobre quando está clara a responsabilidade de políticas públicas e de governantes na determinação objetiva dos fatores que trouxeram estes desabamentos trágicos, sobretudo os que vitimaram as famílias mais pobres, sempre tangidas para viver à beira de precipícios e de áreas inadequadas.

Qual poderia ter sido o papel dos meios de comunicação em situações como esta de tal forma a formar uma consciência na sociedade que constranja os governantes a priorizar políticas habitacionais humanas, seguras, apropriadas? Quando surgem as tragédias, os meios deslocam suas equipes, alteram os horários de programação, dão uma cobertura ampla da catástrofe. Mas, normalmente, as iniciativas, estudos, fatos, alertas que podem evitar ou diminuir as perdas humanas das catástrofes , estas não merecem o mesmo espaço espetacular que a mídia dedica quando a catástrofe já ocorreu. A questão que queremos colocar para reflexão aqui é: será que o jornalismo não pode ir muito mais além do que reportar, muitas vezes com claro sensacionalismo, a estas tragédias? Será que não pode ajudar a elaborar uma consciência na sociedade sobre serem muitas destas tragédias perfeitamente previsíveis e evitáveis?

Tsunami, elefantes e insensibilidade comunicativa

Quando do Tsunami, que arrasou vários países na Ásia, assim que ocorreram as movimentações das placas tectônicas no fundo do mar os aparelhos dos institutos de sismologia dos EUA os detectaram instantaneamente. Pela grande magnitude do fenômeno, foi possível prever imediatamente que ondas gigantescas se formariam e atingiram as regiões costeiras em algumas horas. A previsão foi tão clara que as embaixadas norte-americanas de todos os países da região foram imediatamente alertadas e até mesmo a Base Militar dos EUA na Ilha de Diego Garcia, avisada, determinou o reposicionamento de aviões e veículos militares para local mais seguro, visando sua proteção.

A simples narrativa resumida de todo o ocorrido permite dizer que as ondas, em alguns casos, levaram de 6 a 7 horas para atingir devastadoramente as cidades costeiras causando centenas de milhares de mortes.

Portanto, era perfeitamente possível - melhor dizer obrigatória - a formação de uma gigantes cadeia midiática internacional, de rádio e TV basicamente, com a mobilização de todos os recursos possíveis, meios de transporte, para evacuar aqueles centenas de seres humanos que poderiam estar vivos hoje!

Se fosse uma instabilidade monetária, colocando em risco lucros de grandes corporações financeiras, certamente teria havido a comunicação prioritária e instantânea de caráter amplo, internacional, para se salvar as riquezas acumuladas. Mas, no caso do Tsunami, tratava-se de salvar “apenas vidas”.....Tanto é assim que elefantes e cachorros, guiados por seu instinto natural, perceberam a chegada das gigantescas ondas e se protegeram. Não se registraram mortes de elefantes e cachorros. Mas, os seres humanos, dotados de uma enorme capacidade tecnológica de comunicação, não a colocaram em uso, guiada por uma concepção solidária, humanista e integrativa da comunicação e não tiveram capacidade de salvar seus semelhantes. Convenhamos, algumas horas são suficientes para uma grande mobilização comunicacional e de transporte para uma evacuação populacional. Muitas vidas se perderam, desnecessariamente!!! Uma outra comunicação é possível, uma comunicação solidária e humanista é rigorosamente possível agora mesmo, e em muitos casos ela está sendo construída.

Furacão e mobilização socialEm 2008 o Caribe foi castigado por um enorme furacão. Ceifou milhares de vidas, causou grande destruição material. Mas seus efeitos catastróficos foram bem diferentes. Em Cuba, grande destruição material e um número reduzido de vidas perdidas. No Haiti e na Guatemala, por onde também passou., além da destruição material, milhares de vidas se perderam.

A diferença está na mobilização da população, por meio de suas organizações sociais, sindicatos, exércitos, e no uso solidário e preventivo dos meios de comunicação, como se faz em Cuba ante os seguidos furacões. Neste último houve o deslocamento de cerca de 1 milhão e 700 mil cubanos das áreas onde o furacão passaria. Até mesmo os animais domésticos foram evacuados disciplinadamente, pois ajudam psicologicamente no comportamento de resistência das crianças e, obviamente, porque merecem um tratamento de carinho social.

Os meios de comunicação nestas circunstâncias atuam em rede nacional, transmitem as orientações da Defesa Civil, há uma perfeita unidade entre mídia, militares, militantes de sindicatos, organizações sociais, até os médicos de família são evacuados junto com as respectivas famílias, garantindo-se a continuidade nos tratamentos em curso. É o papel solidário da mídia, claro, inserida em uma política ampla de unidade nacional e popular para enfrentar a violência dos furacões. Infelizmente, nos outros dois países citados, muitas vidas se perderam. Não se mobilizam todos os recursos e nem mesmo os meios de comunicação alteram sua grade de programação comercial para atuar como ferramenta de defesa social, o que deveria ser imperativo, obrigatório, razão de ser dos meios de comunicação social!


Mídia e voracidade pelo lucro

Há alguns anos, quando uma enorme tempestade atingia o Rio de Janeiro e causava deslizamentos, mortes de pessoas por soterramento ou carregadas pelas enxurradas, os meios de comunicação seguiam com sua programação normal, no máximo com uma reportagem ou outra sobre o fenômeno. Pessoas morriam eletrocutadas, não recebiam orientação, e a programação da TV e rádio era a comercial de sempre. Havia ocorrido, então, horas antes, o acidente aéreo que causou a morte de todos os integrantes da Banda Mamonas Assassinas. E a maior rede de comunicação do Brasil suspende então sua programação normal, porém, não para transmitir orientações para a população castigada pelo temporal que matava e destruía no Rio, o que poderia provavelmente ajudar a evitar que mais vidas se perdessem. Passa a transmitir por horas a fio o velório e o funeral da Banda de rock, cujos discos foram gravados pela Som Livre, gravadora pertencente ao Grupo Globo de Comunicação. Ficam claros os critérios que decidem até mesmo na suspensão da programação. Normalmente, não prevalecem os critérios de uma comunicação solidária. Ou seja, mesmo em situações de extrema gravidade, com risco de destruição e perdas de vida, mesmo assim, predomina uma insensibilidade social diante da necessidade imperiosa do uso solidário e humanista da mídia.


O furacão Katrina e a destruição previsívelCom boa antecedência os institutos meteorológicos dos EUA previram a inevitável chegada e a força do furacão Katrina sobre a cidade de Nova Orleans. Ainda assim, não se organizou uma evacuação em massa. À medida que o furacão se aproximava, deu-se uma selvagem seleção das espécies socioeconômicas. Quem tinha carro, fugia para cidades do interior. Houve até mesmo uma autoridade estadunidense que pressionada a prestar auxílio a uma maioria de pobres e negros que mora na cidade, pronunciou um famoso “Virem-se!!!”, confessando sua criminosa irresponsabilidade. Não houve uma cadeia de rádio e TV orientando, prevendo, organizando, mobilizando a população. Nem mesmo houve a colocação de meios de transporte à disposição. Vale registrar que isto não seria difícil para um país com grandes recursos materiais e tecnológicos e que tantas vezes provou sua capacidade de gigantescos deslocamentos de tropas cruzando oceanos para alguma ação militar em defesa dos “interesses vitais dos EUA”. Milhares de famílias pobres morreram ou perderam tudo em Nova Orleans. Não houve mobilização social. Não houve mobilização midiática solidária e humanista para salvar vidas.
Como no Haiti, onde os palacetes dos ricos estão intactos após o terremoto, em Nova Orleans, os ricos, dispondo de carros e gasolina, pois esta também escasseou, puderam fugir do furacão Katrina. E quando Cuba colocou à disposição dos EUA uma brigada de solidariedade de 1200 médicos cubanos, o sinistro George W Bush rejeitou-a. Como estas notícias foram tratadas? Como deveriam ter sido tratadas? O que é verdadeiramente notícia?


Jornalismo de Integração

Embora esteja inscrito na Constituição Federal que a integração latino-americana é um dos objetivos da Nação Brasileira, os meios de comunicação atuam com uma lógica e uma linha editorial antagônica a esta idéia de cooperação, de solidariedade entre povos e países. Pratica o que chamamos de jornalismo de desintegração.

Todos os projetos visando uma integração energética, seja com a construção de gasodutos que interliguem vários países - a Petrobrás está construindo o gasoduto do sul na Argentina - ou com construção de estradas que permitam a ligação do Atlântico com o Pacífico, já em marcha, recebem tão somente uma cobertura negativista, de desconfiança, normalmente envolta numa linha editorial que pressupõe que toda iniciativa de integração certamente vai fracassar. É o jornalismo da desintegração. Sabemos quais são os poderosos interesses imperiais que operam para evitar que Brasil e Argentina estejam cada vez mais integrados e cooperativos. Todos os governos progressistas da região, que receberam o aval do voto popular e seguem com o apoio de seus povos, recebem tratamento midiático depreciativo, configurando um esforço editorial permanente para destruir a imagem de seus líderes e destes governos.

A Bolívia, um dos países mais pobres da região, já foi declarado pela UNESCO como “Território Livre do Analfabetismo” e isto não foi noticiado com a importância e o destaque que merece. Muito mais importância é dada ao lançamento de um novo perfume em Paris.....Como a mídia da desintegração trata a Evo Morales? Como narco-presidente!!!! A OMS - Organização Mundial da Saúde chega até a recomendar, de modo colonialista, que se abandone a cultura tradicional dos indígenas de mascar a folha de coca. E isto é notícia. Mas nunca se viu uma recomendação da mesma instituição para que se abandone o consumo de Coca-cola e chicletes, notoriamente maléficos à saúde, sobretudo num mundo que anda a caminho de uma epidemia de diabetes.

A Venezuela paga o mais elevado salário mínimo da América Latina, 435 dólares, também eliminou o analfabetismo e tem o mais elevado consumo per capita de energia elétrica do continente. Está nacionalizando os supermercados multinacionais que especulam com o preço de alimentos, está nacionalizando bancos e as riquezas naturais do país, está demolindo gradualmente as cadeias de dominação estrangeira sobre seu petróleo e outros minerais. Com isso, irrita profundamente as oligarquias e as transnacionais em todo o mundo, pois é um exemplo de rebeldia antiimperialista. Uma tempestade de desinformação desabou sobre a Venezuela buscando confundir e separar a Pátria de Bolívar do restante da América Latina. É o preço que a Revolução Bolivariana está pagando por desafiar os impérios e as oligarquias nativas que temem a propagação dos exemplos de justiça social e nacionalização em cada um dos países da região.Cuba, juntamente com a Venezuela, coloca seus milhares de médicos à disposição das populações pobres de todo o mundo. Hoje, são mais de 70 mil médicos e profissionais de saúde cubanos que estão espalhados por mais de 70 países prestando solidariedade. Até no Timor Leste há hoje 400 médicos cubanos! E médicos estadunidenses, há apenas um, o da Embaixada dos EUA, que pressionou o governo timorense a não receber os médicos cubanos. Ramos-Horta, presidente do Timor, poeta e jornalista, perguntou ao embaixador estadunidense: “Quantos médicos o senhor tem aqui?”Pois Cuba e Venezuela se deram como objetivo operar de catarata a 6 milhões de cidadãos latino-americanos pobres em 10 anos, seguindo meta da Organização Mundial de Saúde, cujas estatísticas registram que a cada ano 500 mil pessoas ficam cegas por causas perfeitamente previsíveis e evitáveis.
Isto é notícia?!!! Onde está a dimensão social da comunicação???!!!
Ações concretas
Telesur nasceu para esta outra comunicação, a da solidariedade e da integração dos povos! Não nascemos para idolatrar o Super-Man ou o Mickey Mouse mas para lembrar que temos nossas lendas, nossos símbolos, nossa cultura e nossos heróis. Nascemos para falar de Negrinho do Pastoreio, de Saci Perê, de Martin Hierro, de Tupamaru, de Pancho Villa, de Zapata, de José Marti, de Bolívar. E também de Jack London e seus heróis, porque também queremos divulgar e mostrar a vitalidade dos povos do sul e também do sul que há bem vivo, embora oprimido, dentro das entranhas do monstro, do Norte, dos EUA.

Queremos estender as mãos para cooperar com todas as emissoras de TV de natureza pública, comprometidas com a missão pública e solidária da comunicação. Sejam TVs comunitárias, estatais, públicas, educativas, universitárias, regionais, culturais, legislativas etc.

É urgente construir outro sistema de comunicação baseado na solidariedade e na soberania informativo-cultural de nossos povos e de nossas culturas. Assim como vários governos estão articulando-se para políticas cooperativas, assim como, por exemplo, o comércio entre Brasil e Argentina já pode ser feito sem a presença do dólar, assim como o Brasil está colaborando com a produção de etanol na Venezuela, assim como médicos cubanos estão no Equador e na Bolívia, assim como professores cubanos estão alfabetizando pescadores no Brasil pelo projeto "Pescando Letras", assim como jovens sem-terras estão se formando em Medicina em Cuba, no campo da comunicação devemos ampliar, expandir nossa cooperação. Sobretudo a partir de emissoras públicas, estatais, educativas, comunitárias e universitárias.
O sinal da Telesur já está disponível em satélite e pode captado e reproduzido gratuitamente. Há também o notíciário da Telesur em português, retransmitido pela TV Paraná Educativa e por várias TVs Comunitárias. Há muitos documentários disponíveis que podem ser exibidos, sempre gratuitamente, por todas as emissoras interessadas, assim como estamos interessados em intercâmbio de programação. É indispensável construir redes, fazer pontes, avançar na integração, divulgando, valorizando tantas iniciativas que os governos progressistas e populares já estão colocando em marcha hoje, como, por exemplo, a Universidade da Integração Latino-Americana, em Foz do Iguaçu, que se somará à Escola de Medicina Latino-Americana de Cuba, que está formando em medicina a 500 estudantes pobres e negros dos bairros do Harlem e do Brooklin dos EUA. Gratuitamente!!!!

Cerca de 400 destes estudantes de medicina, haitianos que estudam em Cuba, estão agora mesmo no Haiti salvando vidas. Quantos médicos os EUA enviaram para o Haiti? Quantos soldados? Quantas metralhadoras? Quantas crianças haitianas foram raptadas para os EUA por criminosos que aproveitam-se da desgraça de um povo?

Já temos um significativo número de meios de comunicação comprometidos com a dimensão solidária e humanista da informação e da cultura. Mas, ainda estamos carentes de maior integração e coordenação entre nós. Estes são desafios a superar. Estão nascendo TVs e rádios públicas na Bolívia, no Paraguai, no Equador, na Nicarágua, na Venezuela, onde nasceu a Telesur, e centenas de TVs comunitárias com apoio do poder público - Argentina, Uruguai. E aqui no Brasil nasceu a TV Brasil. Mas, ainda precisamos nos integrar.

Quem sabe uma maneira de provar que poderemos sair daqui dispostos a maiores articulações, a ações construtivas para uma comunicação solidária e de integração seja nossa adesão a uma campanha que já está em marcha, intitulada “Uma Rádio Solidariedade para o Haiti”? Queremos enviar para o Haiti dois kits de rádios transmissores comunitários, mil radinhos de pilha e mais 4 mil pilhas para que possam promover uma comunicação sobre saúde, de orientação social, sobre pessoas desaparecidas, sobre cuidados de higiene, informações de utilidade pública

Lá tudo se perdeu, menos a dignidade daquele povo heróico, primeira república libertadora de escravos das Américas!


Beto Almeida

Membro da Junta Diretiva de Telesur



Porto Alegre, 3 de fevereiro de 2010

domingo, 7 de fevereiro de 2010

"DEVEMOS BUSCAR UMA REVOLUÇÃO MIDIÁTICA

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Para o jornalista espanhol Pascual Serrano, fundador da página Rebelión, a esquerda mundial deve criar seus próprios meios para trazer à tona os fatos “silenciados” pela imprensa comercial

14/01/2010
Cristiano Navarro, Igor Ojeda,
Nilton Viana e Tatiana Merlino*
de Guararema (São Paulo)

O silêncio é, paradoxalmente, um dos principais mecanismos adotados pelos meios de comunicação para manipular os fatos. Se uma notícia não interessa aos donos da imprensa – e, consequentemente, aos donos do mundo –, ela simplesmente não é veiculada. Tal denúncia é feita pelo jornalista espanhol Pascual Serrano, um dos fundadores da página alternativa Rebelión e autor do livro “Desinformación. Cómo los medios ocultan el mundo”, lançado em meados do ano passado.

“Se contarem muitas mentiras, perderão sua credibilidade, perderiam sua eficácia como mecanismo de formação de opinião”, diz, em conversa na Escola Nacional Florestan Fernandes, em Guararema (SP). Portanto, segundo ele, os meios, além de ignorarem seletivamente determinados fatos, lançam mão de outros expedientes, como a descontextualização e a linguagem enviesada. Para Serrano, só há um modo da esquerda se defender de tamanha manipulação. Criar seus próprios meios, em vez de ficar esperando por pequenos espaços na grande mídia.

Brasil de Fato – Você tem um livro chamado “Desinformação. Como os meios ocultam o mundo”. Quais são os principais mecanismos que os meios utilizam para ocultar o mundo?

Pascual Serrano – Eu dividiria em dois mecanismos. Por um lado, os estruturais: ou seja, os mecanismos cotidianos de funcionamento da imprensa que, por seu modelo de trabalho, são incompatíveis com a explicação do mundo. Fundamentalmente, seria a falta de antecedentes sobre um contexto para se compreender uma situação complexa, a dinâmica da televisão – que, com seu ritmo trepidante, impede a compreensão, sobretudo, de assuntos complicados – e o culto ao sensacionalismo da imagem – que ocorre muito na televisão. Isso impede aprofundar as questões e enviar uma mensagem complexa. Por exemplo, quando você quer dar um sentido simples – que o Irã tem bomba atômica ou que o Chávez é um ditador –, isso pode ser dito em poucas palavras. Mas se você quer explicar que a política dos EUA está provocando um genocídio no Afeganistão, isso exige uma explicação mais complexa. Uma outra situação é quando há um consenso e um plano premeditado por parte dos grandes meios para enviar uma mensagem concreta. Isso contempla estigmatizar ou criminalizar líderes políticos que não são do gosto do establishment mundial, até criminalizar movimentos sociais, ou determinados coletivos ou causas. Atentem para o fato de que o mecanismo não é somente a mentira, que essa existe, mas não é a mais habitual. Porque eles sabem que sua principal carta é a credibilidade. Se contarem muitas mentiras, perderão sua credibilidade, perderiam sua eficácia como mecanismo de formação de opinião. Ou seja, o plano é mais refinado: utilizam-se de silenciamentos de notícias que eles não gostam. Por exemplo: a missão Milagre, realizada em uma parceria entre Venezuela e Cuba, que fez com que um milhão de pessoas de origem humilde na América Latina e Caribe conseguissem recuperar a visão, é notícia, parece evidentemente relevante , mas isso está silenciado. Além disso, eles também jogam com o enquadro, o enfoque da notícia, buscando elementos dentro de um contexto que levem para uma tese e não para outra. E o que fica claro no livro é que o modelo muda de uma região para outra, de um tema para outro. Por exemplo: no conflito Palestina-Israel, o problema é a falta de contexto. Ninguém, neste momento, parece saber dizer a origem deste conflito, apesar dele estar presente todos os dias no noticiário. Utilizam a linguagem como método de manipulação, de maneira que sistematicamente chamam de terrorista os palestinos. Chamam de sequestrados os soldados israelenses capturados. Chamam de detidos os civis palestinos que são sequestrados pelo exército israelense. Na África, por exemplo, aplica-se o silenciamento, ou apresenta-se os conflitos como questões tribais, em vez de mostrarem os interesses de empresas e poderes coloniais como França e EUA. E, na América Latina, utilizam a estigmatização e criminalização constante dos líderes, como Hugo Chávez, Evo Morales ou Fidel Castro. No caso da Venezuela, é curioso, porque apresentam como escândalos notícias que se apresentam como normais em outros países. Reivindicam como escândalos a não renovação de uma concessão de TV cujo prazo acabou e a mudança de um fuso horário. Há outra pauta habitual em relação à América Latina, através da qual o presidente ou o líder político são apresentados sempre em meio a uma imagem de crise, desestabilizações e caos. Isso faz com que, na Europa, todo mundo conheça os nomes dos presidentes da Bolívia e da Venezuela, mas não conheçam o nome do presidente do Peru ou do México. Inclusive, se você pergunta quem teria sido outro presidente da Bolívia ou da Venezuela, não sabem dizer. E dos últimos anos, Evo Morales e Hugo Chávez, todo mundo sabe quem é.

Quais foram os métodos utilizados para fazer o livro, como foi a pesquisa?

O livro nasceu um pouco da minha experiência como diretor da Telesur, onde observei que tudo que chega das agências de notícia e, inclusive, os hábitos dos jovens jornalistas, impedem explicar em profundidade o está acontecendo no mundo. Então, refleti sobre como explicar o mundo com suficiente complexidade na televisão. Tudo que eu quis fazer na Telesur muitas vezes não é possível fazer em uma televisão por imperativos técnicos, econômicos, logísticos ou de imagem. Assim, comecei a entrevistar especialistas e jornalistas que considero autores de confiança e que conhecem em profundidade diferentes regiões – por exemplo, sobre Afeganistão, Congo, Cuba, China. Enfim, perguntei a estes especialistas sobre a zona que conheciam. Perguntei se o que passa na imprensa se ajusta ao que acontece. Eles, evidentemente, opinaram e mostraram como determinadas situações não estão ajustadas ao que está sendo contado nos meios de comunicação. Falei com as organizações de direitos humanos que estão nos locais. Busquei analistas que trabalham com meios de comunicação, observatórios de meios de comunicação, especialistas nos seguimentos de notícia em âmbito acadêmico. Conversei com meios alternativos que não estão tão influenciados por interesses publicitários ou de grupos econômicos empresariais.

Você acredita que existe uma espécie de plano estabelecido entre os diversos meios para desinformar ou as coisas acontecem de forma mais natural e automática, como sendo uma espécie de ação de imprensa que vai se estabelecendo?

Não é um plano desenhado, mas parte da evolução espontânea do mecanismo de funcionamento dos meios de comunicação. Seguindo a ideia: meios de comunicação são propriedades de grandes grupos empresariais. Interesses econômicos de grandes empresas multinacionais pedem grandes investimentos em publicidade. Políticos liberais que não gostam de políticas progressistas reagem em conjunto com estes atores. Ou seja, assim se forma um consenso para satanizar o Hugo Chávez ou para satanizar ou criminalizar a Revolução Cubana. A grande imprensa não se reúne para dizer: “como vamos atacar Cuba ou Chávez?”. Os interesses destes grupos econômicos é que vão atuar em consenso, sem necessidade de se coordenarem. Um exemplo claro são os países latino-americanos que passam por reformas nas leis de comunicação. A reação dos grandes meios de comunicação na Venezuela, na Argentina e no Equador foi igual. Governos que iniciam processos de democratização dos meios de comunicação, cedendo espaço aos movimentos sociais, meios independentes e imprensa livre, encontram sistemática oposição de grupos midiáticos espanhóis, bolivianos, argentinos e equatorianos. E, se amanhã houver uma iniciativa como essa no Brasil, será igual.
Mas, se por um lado não há um plano, por outro existe uma articulação dos meios, como, por exemplo, a Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) ou a ONG Repórteres Sem fronteira.

Como é esta articulação?

Sim, eles têm mecanismos de combate comum. E é bom decifrar como operam e como não têm nenhuma legitimidade ou representatividade. Por exemplo, quando se fala da Sociedade Interamericana de Imprensa, não devemos nos cansar de explicar que se trata de uma associação patronal. Que defende as empresas e não representa nenhuma liberdade de expressão. É como se empresas que constroem estradas falassem da falta de liberdade de movimento porque estão impedidas de construírem uma estrada na Amazônia. Não, liberdade de movimento é diferente de construir estradas. Além disso, temos que esclarecer que quando as empresas falam de liberdade de expressão, estão reivindicando o seu direito de censura. Ou seja, querem continuar com seu direito de manter o oligopólio e o controle da informação. Dizer o que pode ir ou não para a tela e chegar ao público. A Repórteres Sem Fronteiras é algo similar. Tem denunciado os jornalistas mortos no Iraque, mas muda de reação quando fala da Colômbia. Recentemente, fiz em uma entrevista com um jornalista colombiano que disse que uma vez perguntou a um representante da Repórteres Sem Fronteiras como ele considerava a liberdade de expressão na Colômbia. Ele respondeu: “Sim, é verdade que nos matam, mas na Colômbia a liberdade de expressão existe”!

Quais são os países onde a desinformação é maior? Em qual nação os meios estão mais concentrados?

Eu acredito que o país mais desinformado é os EUA, considerando a quantidade de recursos que o governo estadunidense tem para infiltrar analistas, comprar jornalistas, pressionar as linhas informativas aos seus interesses. Ademais, os lobbies das empresas, como as de armas, sobre conteúdos jornalísticos, ficou claro na guerra do Iraque. Em alguns países, as denúncias de que não haviam armas de destruição massiva ou de que era uma invasão ilegal ao país do Oriente Médio tiveram uma certa aceitação. Nos EUA, dados de analistas e informações mostraram que a desinformação publicada a respeito da invasão era totalmente a favor da intervenção. Ao ponto em que 51% dos estadunidenses acreditavam que Saddam Hussein havia participado pessoalmente nos atentados de 11 de setembro. O que demonstra claramente que foram enganados. Mas acredito que o país onde a desinformação levou ao enlouquecimento manipulador de maneira mais violenta e radical é a Venezuela. O livro narra exemplos impressionantes. Não só como os meios de comunicação venezuelanos tratavam o Chavéz, mas como as informações chegavam a outros países. Me lembro de uma manifestação a favor de Chávez que as televisões, ao vivo, para mostrarem que haviam poucas pessoas, filmaram a dois quilômetros de onde estava acontecendo o ato. Ou mostravam e repassavam para outros países imagens de manifestação em oposição a Chávez com imagens gravadas há anos!

Como é possível se contrapor a este poder?

Neste momento, o principal mecanismo de combate que o capital e a burguesia possuem contra os governos progressistas não é sequer a ameaça de um golpe militar, são os meios de comunicação. Já conseguiram coisas que nenhuma empresa e nenhum governo conseguiram. Maior impunidade, menos controle por parte das legislações. Creio que os governos progressistas reagiram demasiadamente atrasados. Evo Morales ou o Lula passaram anos reclamando que os meios de comunicação não paravam de atacá-los e agredi-los. Apenas reclamar me parece uma política ineficaz. Se um governo progressista é atacado, o que ele tem a fazer é desenvolver políticas públicas para evitar isso. É como em educação: se não há colégio para todas as crianças, os governos não devem vir se queixar, devem construir escolas. E estes governos devem criar políticas públicas de democratização da comunicação. Mas estes meios públicos e comunitários não podem se converter em meios de governo, presidentes e partidos. Devem ser participativos, democráticos e estar sob controle do cidadão. Esses são pontos imprescindíveis e que estão se desenvolvendo lentamente, mas com passos firmes. A Venezuela está na primeira linha de desenvolvimento de meios comunitários e públicos, à frente da Europa.

Você acredita que a esquerda, de maneira geral, já se deu conta da importância dos meios de comunicação como mecanismo de resistência à dominação das elites?

A esquerda se deu conta, ela é consciente de que tem grandes inimigos nos meios de comunicação, mas não sabe o que fazer. Durante muitos anos, a esquerda achou que deveria pactuar com os grandes meios. Organizando entrevistas coletivas, passando as informações, dando subvenção fiscais. Assim, acreditaram em um acordo com o capital, pensando que ele os poderiam deixar governar. A esquerda tradicional, seja em governos progressistas ou em partidos políticos, precisa compreender que não há pacto possível. Os grandes meios somente hipotecam espaços, mas não deixarão que nada se mova. O que devemos buscar é uma revolução midiática. Pois o dilema da mídia é o mesmo dilema que há em outros setores. Então, não há pacto com latifundiário, porque ele nunca vai querer perder o latifúndio, nem de terra, nem de mídia. Porque são empresas de comunicação e, por trás, grupos de empresários e um modelo econômico.
Como é o panorama da imprensa de esquerda na Espanha?

É deprimente. O México tem um excelente jornal, que é o La Jornada. No Brasil, vocês têm o Brasil de Fato, que é uma experiência muito bonita de coordenação dos movimentos sociais para ter uma publicação, o que é algo muito difícil. Na Itália, ainda há o Il Manifesto e outros ligados à esquerda. Mas na Espanha não.

* Da revista Caros Amigos



Nascido em Valencia (Espanha) em 1964, Pascual Serrano fundou em 1996, juntamente com um grupo de jornalistas, a página Rebelión (www.rebelion.org). De 2006 a 2007, Serrano foi assessor editorial da Telesur.
Hoje, colabora com publicações espanholas e latino-americanas e, mensalmente, com Le Monde Diplomatique. Entre seus livros sobre política e comunicação, destacam-se: “Desinformación. Cómo los medios ocultan el mundo”, de 2009;
“Perlas 2. Patrañas, disparates y trapacerías en los medios de comunicación”, de 2007, e “Medios violentos. Palabras e imágenes para el odio y la guerra”.